Variação discursiva: procedimentos metodológicos para delimitação do envelope de variação

GÖRSKI, Edair Maria; VALLE, Carla Regina Martins;

Resumo:

Em uma visão panorâmica dos estudos no âmbito da Sociolinguística Variacionista no Brasil, ancorados na Teoria da Variação e Mudança (TVM), percebemos que desde a década de 1980 há pesquisas que se voltam à análise de fenômenos de variação considerando uma abordagem funcional, como podemos notar em trabalhos desenvolvidos no Programa de Estudos do Uso da Língua – PEUL/UFRJ (cf. SILVA; SCHERRE, 1996). A coletânea Variação e discurso, organizada por Macedo, Roncarati e Mollica (1996), reúne textos que apresentam resultados de pesquisas que investigam fenômenos linguísticos diversos à luz de um tratamento que as autoras identificam como “discursivo-funcional”, envolvendo aspectos textuais, argumentativos, pragmáticos, entre outros. O título do livro, nesse caso, remete tanto a fenômenos de natureza discursiva – caso dos marcadores conversacionais –, como a contextos discursivos em que se manifesta um dado fenômeno variável em estudo – caso dos tempos e modos verbais, por exemplo. Em uma retrospectiva sociolinguística com as contribuições do PEUL, Paiva e Scherre (1999) ressaltam trabalhos do grupo que alargam os domínios da variação para além do nível morfossintático, incorporando nos estudos variacionistas “fatores ligados à organização do discurso, ao processamento da fala e ao processo interacional” (p. 207). Freitag (2009), ao discutir problemas teóricometodológicos para o estudo da variação em níveis gramaticais mais altos que a fonologia, utiliza o termo “variação discursiva” para designar tanto a variação no uso de marcadores discursivos, como os condicionamentos discursivos que influenciam a escolha de variantes de natureza morfossintática, por exemplo. Na obra Variação estilística: reflexões teórico-metodológicas e propostas de análise, organizada por Görski, Coelho e Nunes de Souza (2014), diversos capítulos contemplam condicionadores discursivos – como gêneros textuais, sequências discursivas e tópico –, e também fenômenos discursivos variáveis – como marcadores de natureza textual-interativa e conectores responsáveis pela relação coesiva de sequenciação de informações. Na apresentação do livro Para conhecer sociolinguística (COELHO et al., 2015), os autores associam a variação discursiva a fenômenos variáveis na dimensão textual/discursiva – tais como encadeadores coesivos (conectores e marcadores discursivos) –, e também a condicionadores de natureza textual/discursiva – tais como escopo semântico e temático.
Essa rápida remissão a alguns trabalhos da área aponta para o fato de que a associação dos termos variação e discurso/discursivo(a) tem aparecido progressivamente nos estudos sociolinguísticos brasileiros nos últimos trinta anos. Não se trata, portanto, de uma novidade na área. No entanto, trata-se de uma abordagem cujo tratamento metodológico, dadas as características dos fenômenos envolvidos, requer um delineamento mais claro de suas etapas, em relação ao que costuma ser dispensado a fenômenos de níveis gramaticais mais baixos – o que já vem sendo apontado em vários trabalhos (cf. NARO; BRAGA, 2000; GÖRSKI; TAVARES; FREITAG, 2008; FREITAG, 2009; ROST SNICHELOTTO, 2009; GÖRSKI; TAVARES, 2013; TAVARES, 2003; 2013; VALLE, 2014; TAVARES; GÖRSKI, no prelo; entre outros).

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DOI: 10.5151/9788580391466-04

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Como citar:

GÖRSKI, Edair Maria; VALLE, Carla Regina Martins; "Variação discursiva: procedimentos metodológicos para delimitação do envelope de variação", p. 79-100 . In: Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. São Paulo: Blucher, 2016.
ISBN: 9788580391466, DOI 10.5151/9788580391466-04