PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS PARA UMA INVESTIGAÇÃO SOCIOLINGUÍSTICA COM A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

DIZEU, Liliane Correia Toscano de Brito;

Resumo:

A língua de sinais usada pelas comunidades de surdos no Brasil é basicamente produzida com as mãos, embora movimentos do corpo e da face desempenhem diferentes funções. Por ser uma língua de modalidade gesto-visual, a Língua Brasileira de Sinais – Libras – faz uso de movimentos gestuais e expressões faciais que são percebidos pela visão (PEREIRA, 2000). É reconhecida legalmente como língua, como sistema linguístico legítimo, e não como um problema do surdo ou patologia da linguagem (QUADROS; KARNOPP, 2004). Quanto à estrutura, tanto as línguas de sinais quanto as línguas orais apresentam as mesmas propriedades abstratas da linguagem, mas se opõem fortemente na sua forma na superfície. Os estudos de Stokoe (1960) mostraram que os sinais não são somente imagens, mas símbolos abstratos, possuindo uma complexa estrutura interior. Stokoe foi o pioneiro na investigação para buscar a estrutura, analisar os sinais e dissecá-los, e a pesquisar suas partes constituintes. Stokoe primeiramente comprovou que cada sinal era constituído por pelo menos três partes independentes (em analogia com os fonemas da fala): o ponto de articulação, a configuração das mãos e o movimento, e que cada uma dessas partes apresenta um número limitado de combinações. Os articuladores primários das línguas de sinais são as mãos, que se movimentam no espaço em frente ao corpo e articulam sinais em determinados pontos de articulação. Um sinal pode ser articulado com uma ou duas mãos (QUADROS; KARNOPP, 2004). O ponto de articulação é o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio corpo, no qual os sinais são articulados. Os sinais articulados são de dois tipos: os que se articulam no espaço neutro diante do corpo e os que se aproximam de uma determinada região do corpo, tais como: cabeça, mão, cintura e os ombros (FERREIRA BRITO, 1995). Já o movimento pode envolver uma vasta rede de formas e direções, desde movimentos internos da mão, os movimentos do pulso e os movimentos direcionais no espaço (QUADROS; KARNOPP, 2004). Durante muito tempo, as línguas de sinais foram consideradas apenas como gestos, incapazes de expressar conceitos abstratos. As línguas de sinais só foram reconhecidas como língua quando surgiu um sistema de notação que pudesse representar a estrutura de seus sinais. As pesquisas sobre as línguas de sinais são muito recentes se comparadas às línguas orais, que já apresentam uma longa tradição. Além disso, a maioria delas ainda não está totalmente descrita em seus níveis fonológico, morfológico e sintático e carece de maior investigação. Com relação à Libras, as pesquisas linguísticas ainda são escassas, e há necessidade de mais trabalhos na área para ampliar a sua descrição. Em pesquisa realizada com a Língua de Sinais da Nova Zelândia, Mckee e Mckee (2006) observaram a ocorrência de variaçõão sociolinguística no nível léxico, possivelmente decorrentes do modelo educacional adotado: grupos de sinalizadores mais velhos apresentaram diferenças no uso da língua de sinais comparados a um grupo de jovens sinalizadores. O grupo de surdos mais velho teve uma experiência educacional a partir de um modelo voltado para a oralidade, enquanto o grupo de surdos mais jovem vivenciou um período educacional em que a língua de sinais foi introduzida nas escolas e a comunidade surda da Nova Zelândia passava por um processo natural de mudança de língua. A partir deste estudo surgiu o interesse de verificar como ocorre a variação linguística na Libras, tendo em vista o processo educacional desenvolvido na cidade de Maceió, em Alagoas, decorrente da mudança política e social sofrida por esta língua. Para tanto, apresentamos uma metodologia de coleta de dados desenvolvida para a coleta de dados de Libras.

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DOI: 10.5151/BlucherOA-MCMDS-5cap

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Como citar:

DIZEU, Liliane Correia Toscano de Brito; "PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS PARA UMA INVESTIGAÇÃO SOCIOLINGUÍSTICA COM A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS", p. 26-30 . In: Metodologia de Coleta e Manipulação de Dados em Sociolinguística. São Paulo: Blucher, .
ISBN: 978-85-8039-086-5, DOI 10.5151/BlucherOA-MCMDS-5cap